Pesquisadores do Projeto CostaMar registraram um evento inédito de reprodução do caranguejo-uçá fora do período de defeso na Estação Ecológica de Maracá-Jipioca, no litoral do Amapá. A andada, nome dado à movimentação reprodutiva da espécie, foi observada no final de junho, e acende o alerta para uma possível defasagem no calendário atual de proteção ao crustáceo na região.
De acordo com o biólogo marinho Jonas Rosa, supervisor regional do projeto, a constatação de que a andada está acontecendo fora do período protegido por lei pode ter impacto direto na preservação da espécie e também na pesca artesanal, atividade que sustenta muitas comunidades tradicionais.
“O que a gente está percebendo é que a andada está começando agora, fora do período oficial de defeso. Isso significa que, durante o defeso, os pescadores ficam impedidos de capturar o caranguejo, mas o animal nem está em reprodução naquele momento. Por outro lado, quando começa a andada de fato, não há nenhuma restrição legal. Isso compromete a recuperação dos estoques e o equilíbrio do sistema como um todo”, explica Jonas.
O projeto prevê monitoramento contínuo ao longo dos próximos três anos. Se novos registros confirmarem o padrão fora de época, a equipe irá elaborar um documento técnico solicitando formalmente a revisão da legislação ambiental vigente, para que o período de defeso passe a coincidir com o momento real da reprodução do caranguejo-uçá no Amapá.
O estudo também coleta dados ambientais como temperatura, salinidade e sanidade da água. No entanto, até o momento, não há evidências de que fatores ambientais estejam interferindo no ciclo reprodutivo.
“A gente acredita que essa diferença no ciclo pode estar relacionada à localização do estado, que está muito próximo da linha do Equador. O comportamento do caranguejo aqui pode ser naturalmente distinto do que ocorre em outras regiões do Brasil”, esclarece o pesquisador.
Além de instituições de pesquisa, o trabalho conta com a participação direta de comunidades tradicionais. Por meio do aplicativo Remar Cidadão, moradores da região podem monitorar e registrar as andadas, contribuindo com os dados da pesquisa em tempo real.
“A gente treina as comunidades a usar o aplicativo e enviar os registros de forma simples, pelo celular. Esses dados chegam até nossa equipe técnica e complementam as análises feitas em campo”, detalha Jonas Rosa.
O Projeto CostaMar, desenvolvido pela RedeMar Brasil com sede em Salvador (BA), tem entre seus objetivos principais o fortalecimento da pesca artesanal e da cultura tradicional. Além do monitoramento do caranguejo, o projeto oferece cursos, oficinas e ações voltadas para o desenvolvimento sustentável das comunidades pesqueiras. Os primeiros cursos na região Norte estão previstos para o mês de agosto, com inscrições disponíveis no perfil oficial do projeto no Instagram (@projetocostamar).
“Esse tipo de estudo já foi realizado em outros estados, como Maranhão e Bahia, onde conseguimos rever a legislação. Aqui no Amapá, ainda não havia dados suficientes. Por isso, essa descoberta é tão importante”, finaliza Jonas.
A possível revisão do defeso visa equilibrar a conservação da espécie com a segurança alimentar e a renda de populações que dependem diretamente da pesca do caranguejo-uçá.


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